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[ Quarta-Feira, 13 de Junho de 2012 ]

Iauareté, Escola Enu Irine Idakine Tariana

Para chegar lá, percorremos o poderoso Rio Negro, nessa época bem cheio. Chegamos em apenas três horas na boca do Rio Uaupés, com lancha motor 60 e prático experiente. Mais algumas horas, avistamos Taracuá de longe pelas construções das missões Salesianas, igreja, prédio e escola, “arquitetura um tanto imponente” no meio de tudo que ali existe, diferente de tudo.

Ao entardecer, chegamos em Ipanoré, contamos com a força de alguns homens para colocar o bote no caminhão para mais alguns minutos de viagem por terra. A travessia por ali é feita assim, pois existe uma forte cachoeira de onde - contam os índios da região - surgiram os Povos do Rio Negro. Homem algum passa por lá. Os que tentam têm suas vidas e embarcações engolidas pelas corredeiras e é ali também, agora encoberta pelas águas, que encontramos uma grande pedra que dizem realizar desejos.   

Do outro lado da estrada, chegamos em Urubucuara. Não havendo mais tempo para seguir, nos acomodamos em uma casinha, gentilmente cedida pelo capitão da comunidade. A noite ali foi um tanto encantada, muitas estrelas, constelações diferentes das encontradas nos céus do sul, parecem fora do lugar ou, por serem tantas, nossos olhos não conseguem diferenciá-las. Já deitadas na rede, ouvimos muitas histórias e eu particularmente dormi com elas, na casinha sem paredes que apenas alguns tocos de velas e estrelas iluminavam.

De manhã bem cedo seguimos viagem para Iauareté, mais três horas, estava muito ansiosa, já havia alguns anos que a Vaga Lume não ia até lá, não sabíamos como estava o trabalho com a biblioteca. Depois de fortes corredeiras avistamos Iauareté, a maior comunidade que já conheci até hoje, já é considerada um distrito e, do outro lado do rio, o solo é colombiano. Em Iauareté, mais construções gigantescas das missões, estradas, calçadas, forças militares, homens construindo pista de pouso. Nosso destino era a escola Enu Irine Idakine Tariana. Não me recordo a tradução desta palavra, mas me contaram que a escola foi construída por lideranças do povo Tariano, que vendo sua língua e tradições se perdendo, viram na criação da escola uma bom caminho para a resistência.

A escola fica afastada do centro de Iaureté e lá existe uma biblioteca Vaga Lume, que está muito viva, usada por professores e meninos e meninas que estudam lá. Havia mais de dois anos que não a visitávamos. Uma multiplicadora fazia o trabalho, mas teve que se mudar para a cidade, achávamos que o trabalho estava parado, mais ali aprendi a maior lição da viagem: acreditar sempre no que provamos nas pessoas, nosso instrumento de trabalho é muito poderoso, as histórias sempre ficam.
Ficamos a manhã e tarde toda com as pessoas da escola, pais, mães, crianças e jovens.

Encantei-me com as crianças que incessantemente me chamavam para brincar, pareciam entender que talvez fôssemos demorar para voltar, queriam ouvir nossas histórias, queriam nos contar as suas. Me nomearam "a professora de brincadeiras". Danadas, vivas, sorridentes, esgotaram meu repertório de brincadeiras, dinâmicas e músicas. Fechamos a tarde com uma boa partida de futebol, da qual fiquei apenas no primeiro tempo, vencida pelo sol quente e calor. Por alguns momentos imaginei como seria bom ficar ali com elas por muito mais tempo do que o previsto no cronograma, poderia descansar e começar tudo outra vez.

No dia seguinte, era hora da despedida, que difícil! Me apaixonei pela escola, por tudo que havia nela e agora era hora de fazer o longo caminho de volta. Todos já estavam lá arrumados para a despedida, cantaram para nós e então fizemos a última brincadeira daquela manhã. Foram muitos sorrisos, abraços e, até perdê-los de vista, fomos acenando o até logo.     

Relato de Márcia Licá, em expedição realizada a São Gabriel da Cachoeira-AM, de 14 a 26 de maio de 2012.

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